Quem saiu às ruas não foi a CIA

EL País por Juan Arias

Quem saiu às ruas não foi a CIAAs manifestações não foram organizadas pelos EUA, e sim por um novo país, surgido das cinzas da Velha República, cada dia mais desgastada

A suspeita do líder do PT na Câmara, o deputado Sibá Machado, de que por trás das manifestações de protesto no domingo pudesse estar a mão negra da CIA, o serviço secreto norte-americano, é no mínimo uma ofensa à inteligência dessa maré de brasileiros que saíram às ruas espontaneamente para dizer à presidenta Dilma que “a paciência” tinha se esgotado.

Quem estava por trás daquela grande manifestação, inédita neste país por ter sido convocada pelas redes sociais, era o novo Brasil que está surgindo das cinzas da Velha República, que parece a cada dia mais exaurida e sem muito a dizer às novas gerações de brasileiros, cansados de ideologias que dividem, em vez de abraçar a todos numa mesma esperança de modernidade.

Os que resistem a aceitar que algo novo e melhor está despertando neste país das mil possibilidades e de tantos talentos desperdiçados (quantos prêmios Nobel tem o Brasil? Nenhum) procuram uma explicação em ultrapassadas intrigas internacionais.

Inicialmente se disse que tinham ido protestar somente os ricos e a classe alta, e que a classe trabalhadora tinha ficado em casa. Então os ricos e a classe média não têm também direito de se manifestar? E por que então esses “não ricos” não aproveitaram a marcha da sexta-feira anterior, convocada pelos sindicatos do PT e pelos movimentos sociais de esquerda, para sair em defesa do governo?

Não são hoje, na verdade, os mais ricos os que mais temem o PT, que governa há 12 anos e que permitiu que fosse triplicado o número de milionários e que eles e os banqueiros ganhassem como nunca antes.

Quem hoje está com medo de perder o que tem, especialmente o emprego, são aqueles mais afetados pela inflação descontrolada, pelos juros absurdos que fizeram 60% das famílias da classe média e baixa se endividarem, empurradas antes para um consumismo enganoso e sem freios. Foram também eles que saíram às ruas. Como me disse muito claramente uma pessoa que esteve domingo na Avenida Paulista, os manifestantes eram, simplesmente, “pessoas”.

Foi essa massa de trabalhadores, pequenos empresários, muitos deles jovens ainda, que estão começando a vida, os que temem que os cortes anunciados frustrem suas aspirações. Cortes sem dúvida hoje indispensáveis, mas que são o fruto maldito do fato de o Governo ter se endividado até o nariz com uma política econômica equivocada e perdulária. Uma política que só agora a presidenta Rousseff começa a reconhecer que foi equivocada, ainda que de má vontade.

Não, não foi a CIA que esteve por trás do protesto lúdico, massivo, espontâneo, gratuito, sem violência de domingo.

Por trás do estupor e do medo que aquela maré de brasileiros provocou nos palácios do poder estava um Brasil que sai de sua letargia. O Brasil que é consciente de que uma política econômica errada, alimentada pelo tsunami de uma corrupção cujo horizonte se alarga a cada dia que passa, pode devolver o país a seus anos de pobreza e atraso.

Por trás do êxito da marcha de domingo estavam aquelas famílias que quiseram sair levando seus filhos pequenos, para que começasse a pulsar nas ruas o coração da democracia conquistada e que desejam que seja herdada purificada e ampliada.

Não foi a CIA que tramou a manifestação que gritava “Fora Dilma” e “Fora PT”, como símbolos de uma forma de governar que já deu o melhor de si e que milhões de brasileiros, hoje quem sabe a grande maioria, desejam que sejam substituídos para que no país se abra uma nova era política, com as mãos menos sujas pela corrupção institucionalizada.

Foi o Brasil que quer acabar com o ambíguo e perigoso mantra que alimenta o ódio de ricos contra pobres, ao passo que hoje o que todos os brasileiros desejam é deixarem de ser pobres e se possível também serem ricos. Por acaso isso é pecado? E não é melhor para os ricos que todos o sejam e produzam mais?

A quem interessa manter essa luta surda de classes criada por ideologias que até a esquerda mais iluminada considera superadas e que semearam no mundo milhões de mortes?

Por trás do protesto estava a inocência das crianças sem medo dos uniformes militares da tropa de choque, com a qual tiravam fotos. Talvez seja uma profecia feliz: os brasileiros, em vez de terem medo das forças de ordem, veem-nas como seu escudo protetor numa sociedade em que podem sair às ruas sem medo de um assalto ou de uma bala perdida.

Estava também por trás da grande manifestação aquela mulher que mostrava visivelmente o bebê que chutava em sua barriga e que deve ter tido vontade de participar daquela festa da democracia com a esperança secreta de que seu filho pudesse viver amanhã numa sociedade que não o esmagasse com o peso da mentira política.

Talvez sonhasse com uma sociedade que velasse para que seu filho crescesse desfrutando em paz das oportunidades para abrir caminho na vida com dignidade. Essas oportunidades que, com um regime ou outro, nunca faltaram nem faltarão para os ricos.

O que o povo pedia no domingo e que estava escrito num cartaz com as cores da bandeira nacional era que lhes “devolvam o Brasil”, o Brasil melhor, muitas vezes ofuscado pelos pecados da política com letra minúscula. O que fica às vezes demasiadamente escondido e adormecido no coração deste povo e que às vezes conseguimos descobrir e desfrutar melhor nós que vimos de fora.

Por trás da grande festa de protesto de 15/15 estava apenas o Brasil que começa a se descobrir outro e que quer que sua voz conte e seja ouvida. O que deseja afirmar que para ser brasileiro legítimo não é preciso aderir a determinado partido ou ideologia.

Dizem que era gente de direita. Nem todos. E se fossem, ser de direita ou de centro é um estigma? A Constituição proíbe? Não são brasileiros também?

Todo o resto é somente uma tentativa de demonizar esses novos anseios por uma sociedade mais de todos, que não exclua ninguém do banquete que ainda hoje parece repartido por uma casta privilegiada com as mãos muitas vezes manchadas de ilegalidade.

Reportagem El País  Jornal Espanhol

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