Mariel

Mariel vai acabar com a Zona Franca de Manaus

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A 45 km ao leste de La Havana surge Mariel, uma grande enseada no mar, com uma fàbrica de cimento e uma usina elétrica à diesel construida em colaboração com o governo da Rússia. Do outro lado o porto de mercadorias. Aqui vivem 45’000 pessoas. Em 1980 Mariel ficou famosa pelo éxodo de massa de 125’000 cubanos em botes e pequenos barcos para Miami. Uma tragédia com muitas mortes que recorda as tragédias atuais no Mediterraneo. Agora Mariel, declarada zona franca, deveria virar o porto de salvação para a esgotada economia cubana.

O primeiro terminal de contentores com guindastes da China acabou de ser inaugurado ontem (23.1.2014) pelo chefe de Estado Raúl Castro e a presidente do Brasil Dilma Rousseff. Ela e seu antecessor Lula estiveram lá várias vezes.

Porque é do Brasil que vem o maior empréstimo para o novo porto, que está em construção faz quatro anos com um custo de quase um bilhão de US$. Dois terços financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES). O consórcio responsável pela construção é o conglomerado brasileiro Odebrecht global.

Roberto senta com as pernas estendidas em um banco na sombra. Ele acaba de terminar o seu turno, é soldador subaqueo no Pier. Pai de 36 anos de idade, diz que nunca teve que trabalhar tão duro e disciplinado em sua vida, mas nunca ganhou tanto: “Com subsídios posso chegar a 1.400 pesos” São 60 francos por mês, três vezes mais que o salário médio estadual. No maior canteiro de obras de Cuba, pedreiros e soldadores podem ganhar mais até de cirurgiões e professores universitários.

Raúl faz o que Fidel amaldiçoava

Este futuro parece chinês aos olhos dos cubanos. O capitalismo sob a ditadura do Partido Comunista. Raúl Castro admira a eficiência da República Popular da China. Mariel é projetado como zona económica especial. Nesta zona existem leis diferentes do resto do país. Aqueles do capitalismo globalizado, as que Fidel Castro sempre amaldiçoou: privilégios fiscais para investidores e empresas estrangeiras, perspectiva de lucros elevados, o comércio livre de impostos. Raúl porém acredita que seu país precisa mais dessas zonas especiais.

Mariel é o maior projeto de construção de Cuba desde a revolução em 1959, a zona tem 465 quilômetros quadrados, cinco vezes maior que a cidade de Zurique. Ele consiste de áreas para diferentes indústrias – IT e telecomunicações, biotecnologia (Pharma), energia, agricultura, indústria de alimentos, logística e outros. Raúl Castro quer atrair capital estrangeiro e empresas internacionais aqui, garantindo baixos custos e permitindo lucros elevados.

O plano de Negócios do Raúl: As empresas fornecem emprego em larga escala para seus compatriotas, que seu aparato estatal inchado deve demitir a centenas de milhares. Os salários devem ser transferidos para o Estado pelos empregadores; este, em seguida, paga uma fração do que recebe para o trabalhador. Cuba opera este negócio lucrativo jà faz anos com seus médicos e outros milhares de profissionais “em missão” no exterior. Os críticos falam em moderna escravidão.

O Brasil paga a maior parte, Rousseff chegou à inauguração.

Em Março, o Governo e o Parlamento (cubanos) querem aprovar uma nova lei para os investidores estrangeiros. Ele deve abrir suas portas e, sobretudo, prestar uma garantia, para que eles não tenham o que temer com seus investimentos. Até agora, o risco de perder tudo de um dia para outro era maior do que a chance de ganhar dinheiro em Cuba. O motivo: Fidel. Ele nacionalizou quase tudo o que era privado após a revolução. Apenas durante a grave crise, em meados dos anos 90, o Líder Máximo abriu a porta para as empresas estrangeiras – com relutância e por insistência do seu irmão Raúl. Fidel tinha três Areas de Livre Comércio estritamente controladas. 400 empresas ousaram ingressar em Cuba investindo quase três bilhões. Fidel aceitou tudo, mas depois de alguns anos deu meia-volta, a porta se fechou novamente, inclusive algumas contas bancárias. Ele encontrou um novo amigo que o admirava e generosamente apoiava: Hugo Chávez, presidente da Venezuela, rica em petróleo.

As empresas manifestaram interesse de construir na zona das obras: a montadora chinesa Geely, a fabricante brasileira de ônibus Marcopolo e Busscar. Empresas alemãs também cogitam em mudar suas atividades de reparo ou instalação de todo Caribe para Mariel. Não se pode negar que a Zona Económica Especial no Golfo do México – perto do Canal do Panamá, o Gateway Pacífico, e está localizada a apenas 120 milhas náuticas do segundo maior mercado do mundo, os EUA, sem duvida é muito atrativa.

No entanto, as dúvidas permanecem.

Mesmo no partido e nos conselhos de administração das empresas estatais, circula uma pergunta: Quem no mundo ainda confia nos Castros? Raúl realmente acredita que poderà fazer dos cubanos abelhas operárias chinesas disciplinadas? O que Cuba tem a oferecer, exceto os problemas? Um deles é o das telecomunicações. As empresas modernas precisam de equipamentos modernos e tecnologia, banda larga de alta velocidade. Cuba não tem nada disso. Da mesma forma, nenhuma experiência na economia de mercado, e os tribunais estão sujeitos ao Partido Comunista. A burocracia é um pesadelo kafkiano.

Fonte: tagesanzeiger.ch

E o que os brasileiros levam?

Surgem algumas perguntas espontâneas:

  1. Como foi negociado o contrato com o BNDES? Quanto foi efetivamente “investido” neste projeto (a mídia cubana fala em 85% do projeto) e qual seria o retorno para o Brasil em termos financeiros?
  2. Qual o papel da Odebrecht neste empreendimento, quando sabemos que outras empreitadas correram propinas? Mais uma tarefa para o Juiz Moro.
  3. As empresa Marcopolo pretende transferir suas atividades para Mariel (leia em Martinoticias). Quantos empregos diretos e indiretos serão cancelados no Brasil?
  4. A empresa Busscar Ônibus entrou em recuperação judicial em 31 de outubro de 2011 com um passivo de R$ 1,6 bilhão. Em entrevista do dia 19/04/2015, Luiz Felipe Canever, juíz da 5ª Vara Cível de Joinville confirma que “Não há como pagar a todos. Sem dúvida, muitos credores não vão receber nada.” (leia aqui) A grana foi para Cuba?
  5. Quais outras empresas deixarão de atuar no Brasil para aproveitar dos “presentes fiscais e trabalhistas” cubanos?
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